Cascos de Cavalo
CASCOS DE CAVALO
Chuangtse
aprox. 335-aprox. 275 a.C.
Este comentário encerra um dos mais devastadores ataques à civilização e ao confucionismo. Não se deve,porém, esquecer a afirmação positiva de Chuangtse segundo a qual a finalidade do governo e da filosofia devia ser "deixar que o povo viva o curso sereno de sua vida" e que "toda a criação seja capaz de cumprir seus instintos de vida (as leis de sua natureza)".
Os cavalos tem cascos para levá-los sobre geada e neve, e pelos para protegê-los do vento e do frio. Comem relva e bebem água, agitam as caudas e galopam. Tal é a real natureza dos cavalos. Salões cerimoniais e grandes mansões não tem qualquer utilidade para eles.
Certo dia, Polo* apareceu dizendo: "Entendo de cuidar de cavalos." Então, queimou seus pelos, tosquiou suas crinas, aparou seus cascos e os marcou com ferro. Colocou cabrestos em volta do pescoço e correntes nas pernas e numerou cada um de acordo com os respectivos estábulos. O resultado foi morrerem dois ou três de cada dez. A seguir, manteve-os famintos e sedentos, obrigando-os a trotar e galopar, e ensinou-os a correr em formação, com a desgraça das rédeas à frente e o medo do chicote de nós atrás, até que a metade deles morreu.
O oleiro diz: "Entendo de trabalhar com o barro. Se quiser algo redondo, uso compassos; se quiser quadrado, uso régua." O carpinteiro diz: "Entendo de trabalhar com madeira. Se quiser algo curvo, uso um arco; se reto, uso um esquadro." Com que base, todavia, podemos pensar que a natureza do barro e da madeira deseje esta aplicação de compassos e régua, arcos e esquadros? Não obstante, todas as eras louvam Polo por sua perícia em domar cavalos e os oleiros e carpinteiros por sua perícia com o barro e a madeira. Os que trabalham os negócios do império praticam o mesmo erro.
Acho que quem sabe como governar o império não deve agir assim. Pois o povo tem certos instintos naturais: tecer e vestir-se, lavrar os campos e alimentar-se. Este é seu caráter comum, de que todos comparticipam. Tais instintos podem ser chamados "nascidos no céu". Assim, nos dias da perfeita natureza, eram os homems quietos de movimento e serenos de aspecto. Naquele tempo, não havia caminhos sobre montanhas nem barcos ou pontes sobre as águas. Todas as coisas eram produzidas, cada qual em seu distrito natural. Aves e animais se multiplicavam; árvores e arbustos floresciam. Era assim que aves e animais podiam ser levados pela mão e podia-se subir para espiar o ninho da pêga. Pois, nos dias da perfeita natureza, vivia o homem juntamente com aves e animais, sem distinção de suas espécies. Quem podia saber de distinções entre cavalheiros e gente vulgar? Sendo todos igualmente sem conhecimentos, sua virtude não se desencaminhava. Sendo todos igualmente sem desejos, viviam num estado de integridade natural. Nesse estado de integridade natural, as pessoas não perdiam sua natureza (original).
Então, quando os sábios apareceram, arrastando caridade e manquejando deveres, a dúvida e a confusão penetraram nas mentes humanas. Diziam que deviam produzir a alegria por meio da música e reforçar as distinções por meio das cerimônias, e o império tornou-se dividido contra si mesmo. Se não fosse cortada a madeira não talhada, quem poderia fazer vasos para sacrifícios? Se se deixasse sem cortar o jade branco, quem poderia fazer as insígnias das côrtes? Se não fossem destruidos o Tao e a virtude, de que valeriam a caridade e o dever? Se não se perdessem os instintos naturais dos homens, que necessidade haveria de música e cerimônias? Se não se confundissem as cinco cores, quem precisaria de adornos? Se não se misturassem as cinco notas, quem adotaria as seis gaitas agudas?
A destruição da integridade natural das coisas para a produção de artigos de várias espécies - esta é a culpa do artesão. A destruição do Tao e da virtude a fim de introduzir a caridade e o dever - este é o erro dos sábios. Os cavalos vivem na terra seca, comem relva e bebem água. Quando lhes apraz, esfregam-se mutuamente os pescoços. Quando encolerizados, giram e dão coices uns nos outros. Até aí, apenas seus instintos naturais os conduzem. Mas, encabrestados e peados, com uma placa de metal em forma de lua posta na testa, aprendem a lançar olhares maldosos, a virar a cabeça para morder, a furtar-se ante a canga, a tirar o freio da boca ou a desviar a rédea da cabeça. Assim, sua mentalidade e seus gestos tornam-se igual aos dos ladrões. Esta é a culpa de Polo.
No tempo de Ho Shu** as pessoas nada faziam de especial em suas casas e não iam a qualquer lugar em especial nos seus passeios. Tendo alimento, regozijavam-se; batendo nas barrigas, andavam a vaguear. Até aí as conduziam as capacidades naturais das pessoas. Vieram então os sábios para fazê-las curvarem-se e dobrarem-se com cerimônias e músicas, a fim de regular as formas exteriores do intercâmbio, e agitaram à sua frente a caridade e o dever, a fim de manter-lhes os espíritos em submissão. Então o povo começou a trabalhar e a desenvolver o gosto pelo conheciment0, a lutar entre si no desejo de lucro, que não tem fim. Este é o erro dos sábios.
* Sun Yang, 658-619 a.C., famoso domador de cavalos.
** Soberano mitológico.
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