sexta-feira, 16 de maio de 2008

A necessidade de tabus

De um trabalho em grupo para Filosofia da Cultura, do curso de Artes Visuais da UFRGS. Fiz a tradução, como pude, de parte da postagem "Need of Tabu", neste mesmo blog. As referências bibliográficas estão naquele texto.

NOSSA NECESSIDADE DE TABU

Será que tudo pode ser mostrado? Onde é que fica o limite para aquilo que vai repetidamente além das fronteiras do que é permitido, para ver tudo e para tudo mostrar?
E quais são as consequências para nossa psique, para nossa vida interior, das novas abordagens tecnológicas pelas quais cenas do que está acontecendo em vários lugares do mundo podem ser espalhadas tão rapidamente, independente da distância?
Perguntas como esta estão sendo colocadas não somente por profissionais criadores-de-opinião mas também pelo homem da rua, que é confrontado com cenas de violência, sofrimento, morte e perversão, até mesmo na privacidade do lar.
(…) O conhecimento psicoanalítico pode nos ajudar a identificar os desejos e fantasias nos momentos em que estamos fascinados ou sentindo repugnância por descrições várias de violência, sejam elas ficção ou uma alegada descrição daquilo que está acontecendo aqui e agora. Esses desejos e fantasias tão pessoais fazem parte de nossos sonhos universais e sempre retornam através da história da espécie humana, usando vários disfarces.

(…) Com toda probabilidade a proibição de descrever certos fatos é tão antiga quanto a capacidade de descrevê-los. O protótipo deste tabu era a proibição, tanto de dizer o nome quanto de descrever o Deus do Judaismo. …
…Cenas de violência, assim como de sexo, são, em nossa cultura, os objetos de um antigo tabu. A relação do homem com sua habilidade de dar nome e descrever sempre foi muito ambígua. O nome e a imagem adquirem um significado mágico, e o fato de dar nome e descrever tem sido uma maneira mística de se apropriar da “realidade”. Podemos ver claros traçøs disso nas brincadeiras infantis – não há nada inexplicável ou tramático no mundo infantil, que a criança não tente dominar pela reprodução do incidente dentro dentro das estruturas seguras de uma brincadeira.

A influência desmoralizadora do ato de descrever tem sido discutida desde a antiguidade e no mundo ideal de Platão todas as formas de arte da mímica eram proibidas. Apesar do meio que usa ou para quem é endereçada, a arte tem sido sempre uma tentativa de descrever as relações do homem com seu tabu, das relações com os limites que ele próprio demarcou para si mesmo. Ao aesmo tempo a arte é um modo de criar, questionar, e quebrar limites, como aqueles entre a realidade e a fantasia, entre o retrato e o retratado. .(…)
A nova tecnologia nos dá a possiblidade comunicar mensagens de uma forma global e instantânea. O meio prevaleceu sobre a mensagem , criando uma ilusão de que não há uma conexão intermediária, como se a cena não fosse mais filtrada pela psique dos outros mas que nos alcançasse diretamente: é uma particularidade das imagens substituir a percepção imediata. As imagens emitidas desta forma, negam a existência dos antigos tabus contra mostrar a violência e a sexualidade humana – ou de que exista um agente psíquico para o tabu.

TABU E VIOLAÇÃO

Tomando a neurose obsessiva como modêlo, Freud entende o tabu como uma proibição consciente da satisfação dos desejos inconscientes mais poderosos e provavelmente a mais antiga forma de consciência. Todos os tabus tem raízes antigas: eles são proibições externas contra fortes ações de desejo que foram impostas nas gerações dos povos primitivos. De forma que a sede do homem por sangue e seu apetite pelo assassinato evoluiram no tabu de sangue e assassinato. Obediência a tabus é equivalente a obediência da criança ao pai e do desejo de se rebelar contra ele. Todos temos atitudes ambivalentes com relação a tabus: não queremos nada mais que quebrá-los, mas ao mesmo tempo temos medo de fazer isso.

Na história da criação, tabus não tem raízes éticas: eles são ontológicos. No início uma diferença se manifestou. Diferenciação foi o ato original de criação. Deus separou o dia da noite, o paraíso da terra, o criador da criatura. Somente Deus sabia a diferença. No início da história humana houve uma infração do tabu. Comer da árvore do conhecimento envolveu o desejo do homem de ver ele próprio a diferença e atacar a diferença entre Deus e o homem. A história começa com a punição de um crime. Ao leste do Jardim do Éden o próximo crime foi cometido. O assassinato de Abel por seu irmão. Em nossa imaginação, sexualidade e sêde por conhecimento estão ligadas aos frutos proibidos. A mesma relação ambivalente, o mesmo desejo incosciente de violar a proibição, jazem no fundo da ciência e da perversão, da criatividade e criminalidade do homem. O homem tomou a liberdade de incluir o proibido numa forma ritualizada, cercada por regras estritas iguais a do totem-alimento, os extasiantes rituais da antiguidade, o “pão e circo” da Roma antiga, o mundo do carnaval.

A função mais importante do tabu é fornecer moldes, para se desenhar uma linha. Cada tabu estabelece um limite entre o permitido e o proibido, entre Deus e o homem, entre o sagrado e o profano, entre o que pode ser tocado e o que não pode., entre o vivo e o não-vivo, entre gerações, sexos, alimento permitido e proibido. O tabu, o limite, deixa espaço para a imaginação, para fantasias sobre ser capaz de fazer o proibido. A violação imaginada é um elemento importante na satisfação de cada desejo. O retrato do proibido dá prazer somente se é estimulado pela imaginação. Sem imaginação o quadro é vazio e mecânico. O objeto que não deixa espaço para a fantasia, apaga os limites ao redor do “fantasiar”, do sonhar acordado, do jogo, do teatro, que precisa ser criado de modo a transformá-lo em “alguma coisa mais” que o mundo de nossa existência diária. (…)

UM LIMITE, UM MOLDE, UM ESCUDO

O primeiro limite com que nos defrontamos é com aquele entre o ego e o não-ego. A dimensão espiritual do homem, nossa psique, pode ser olhada como um produto de um limite, uma separação.
Na tradição psicoanalítica existe um certo número de conceitos que descrevem a linha divisória entre o ego e os estímulos vindos tanto do exterior como do interior.
De acordo com Freud, trauma é uma questão de grandes quantidades de excitação se infiltrando pela barreira de proteção do ego. Ele descreve depressão como uma “ferida aberta”, um “buraco na esfera psíquica”, um “ferimento interno” que esvazia o ego.
Internamente, também, nossa psique é estruturada por limites desenhados entre vários instrumentos: a consciência, a pré-consciência e a inconsciência u o id, o ego e o superego.
Freud compara o “escudo protetor contra a excitação” a uma membrana ou pele que toma um caráter inorgânico porque a camada mais externa parou de viver, salvando as camadas mais profundas de um destino similar.
Anzieu estudou a significância da “membrana” como um limite e um escudo para o ego, um saco unificador e protetor. (…) Por esse motivo podemos dizer que cada ato de violência, tanto psíquica como física, é direcionada contra o escudo protetor do ego, a membrana psiquica, e concretamente contra a pele da vítima e orifícios do corpo.
Esta tese, que está ligada à declaração de Freud de que o modelo para todos os tabus está no tabu de toque, também é aplicável aos casos de (invasão da) violência e da perversão.

Nossa relação com o ego e seus limites é de caráter dúbio. De um lado lutamos para manter o ego como um instrumento de autonomia, um agente ativo em nossas vidas, um centro ações autônomas e éticas.
Por outro lado temos a vontade de transgredir os limites do ego: isso pode ser interpretado como uma coisa obstaculizando a outra, liberando a existência, indo além do ego.
Podemos experienciar a dissolução do ego no sono e nos sonhos, usando város tipos de estímulo, indo aos cinemas, curtindo a natureza ou cultuando religiões extasiantes ou experiências sexuais.
Um vôo muito além dos limites do ego, como por exemplo, no consumo de drogas, pode terminar em violência, crime, caos e a queda do indivíduo.

Um limite é aquele entre a ficção e a realidade. Este limite não é gerado definitivamente. Ele vai mudando com o desenvolvimento do indivíduo e da cultura. Às vezes é ritualizado, mesmo que o limite pareça ser invisível. Os ouvintes sentam ao redor do poeta e começa a narrativa. “Vamos brincar”, diz a criança. A família se recolhe ao redor do rádio, as luzes diminuem no cinema, a cortina sobe no teatro. Abrimos e fechamos o livro, uma vez mais.
Mas nunca teremos certeza. É claro que as crianças podem gritar ao marionete “cuidado!” quando o inimigo se esgueira atrás do nosso herói, mesmo se num outro nível sabemos que é “somente” uma peça e um teatro de fantoches. (…)

Desafiar esse limite entre ficção e realidade sempre foi a ambição da grande arte. (…)

Esse limite entre ficção e realidade, entre “faz-de-conta” e “prá valer”, entre o retrato e o retratado, é influenciado constantemente pelas novas técnicas de narração e novas ferramentas de comunicação.
A geração nascida antes que existisse TV, pode ter problemas pelo fato de que a diferença entre um programa de notícias e um filme de horror deixe de existir, ao se mudar de canal.
A nova mídia eletrônica é o exemplo claro do que se tornou realidade virtual, substitui, uma vez mais, o limite entre ficção e realidade, entre vida e não-vida. (…)
Quando a realidade fica insuportável nós podemos torná-la “ficção” olhando-a como alguma coisa que está acontecendo “lá”, como “somente” um quadro ou alguma coisa que não está “aqui”.
As crianças precisam de nossa confirmação, “Eles atiram assim no nosso país? Em nossa cidade?, Em nossa rua?, Em nós? “.

Existe também a tentação de cruzar o limite entre o bem e o mal. Nossas memórias dos intermináveis debates sobre moral, na nossa adolescência, quase sempre com exemplos que ultrapassaram os limites, podem ser um lembrete disso. No mundo da ficçnao Fausto, assim como os heróis da ficção-científica personificam nossa fascinaçnao com o mal. Nós provavelmente carregamos em nós uma fantasia, de uma vida “além do bem e do mal” (Nietzsche), além dos limites de nossa existência, com acesso a poderes ilimitados e forças secretas. Recentemente foi observado que não é somente nos filmes mas também nos novos livros editados para jovens, que enfocam, cada vez mais, o mal e a morte, sem amor, sem nada de bom, sem explicação. Sintomaticamente, nessas publicações há uma recorrência da mesma observação que o herói faz quando pego numa situação vulnerável: “Parecia um filme”. Esta fascinação com o mal e o poder está sempre ligada a noções de quebra de limites, originalmente o desejo de ir além da impotência da criança e suplantar a autoridade e proibições dos pais. Isto está ligado, também, ao desejo de imortalidade e de uma vida não governada por princípios morais.

Para nós, o limite mais importante é aquele entre a vida e a morte, entre humano e não-humano. Talvez cada uso de violência implique que a outra pessoa é desumanizada, roubada de sua dignidade humana, olhada não como um sujeito vivo e com sentimentos, mas como um objeto de nossa luxúria e nosso ódio. É muito fina a linha que diferencia dois cavaleiros que estão engajados numa luta de vida e morte, mas que reconhecem a soberania, um do outro, e do inderrotável herói lutando contra o mal encorporado numa figura humana. A aniquilação sistemática dos Judeus pressupõe que eles tenham sido primeiro declarados e olhados como não-humanos, vermes e contagios a serem erradicados – nós ainda falamos da “exterminação” dos Judeus.

Os limites entre ficção e realidade, entre bem e mal e entre vida e morte estão intimamente interligados. Quando um é eliminado o outro segue atrás. O desejo de quebrar os limites do próprio ego está ligado com o desejo de ver e mostrar tudo. Cedo decorre que todos esses assuntos lidam com um aspecto tabu-cobertura, às expensas do todo conectado que nós não queremos ver ou mostrar. Este é o mecanismo comum a cada quebra de limite – isolando um fragmento de nossa vida emocional e ingnorando o todo a que está conectado. Desse modo o limite que será quebrado e eliminado é re-criado. Nesse ponto já podemos formular uma hipótese preliminar, que a descrição de violência e perversão podem levar a consequências traumáticas intra-psíquicas caso ela penetre a membrana de proteção do ego ou contribua para sua dissolução. Uma condição para trabalhar psicologicamente nossas experiências e conflitos é, ao contrário, a manutenção de limites. No caso de tratamento psicoanalítico o propósito dos moldes é proteger tanto o analista quanto o analizado, de destruirem um ao outro. Certas ações são tabu e sob esse manto tudo pode ser expressado e nomeado.


QUEBRA DE LIMITES: OS LIMITES

(…) O desejo de ultrapassar e apagar os limites do ego, quebrar tabus, é um importante incentivo aos retratos da destrutividade e sexuadlidade humanas. Quebrar um limite é possível somente se houver um limite para quebrar.
Além do limite tudo é permitido. Passar por uma fronteira geográfica, deixando o seu próprio país é quase o equivalente a deixar para trás as restrições do próprio superego. (…)
Quando os limites aceitos culturalmente para que o permissível seja substituído, o conteúdo das ações e quadros que tinham intenção de desafiar os tabus também são afetados.
Já que os casos sobre a destrutividade e sexualidade do homem se adaptam a isso, eles devem nos tentar com promessas de que nos será permitido ver alguma coisa nunca antes vista, mais genuína, mais real, mais angustiante.
A indignação ou a excitação que a descrição de violência está destinada a gerar exige quadros novos, mais ousados. Essa inflação do cruzar limites nos deixa, finalmente, entendiados e indiferentes: é apenas mais uma cena dos feridos nas filas de comida em Sarajevo, é, de novo, outra série de cenas dos carregadores de macas, o foco nas poças de sangue pelo chão.
Paradoxalmente o tabu precisa ser recriado para que seja capaz de apreciar ou ser horrorizado ao se ver ou dar um nome ao proibido. A TV tem que nos avisar sobre cenas de choque e violentas. A advertência para filmes em vídeo-cassete nos tenta com uma versão sem cortes – mais sangue e mais esperma.
A dialética do quebrar limites é que ela restaura a proibição que teve que ser abolida.

No inconsciente, crimes contra tabus são punidos com pena de morte. Para nós, humanos, a transgressão da barreira final é a nossa própria morte e a dos outros, numa travessia irreverssível.
A tentação e o desejo de ultrapassar limites está ligada à sexualização da morte e à mortificação da sexualidade.
O objeto das cenas de violência e pornografia é sempre assassinado simbolicamente, transformado de um sujeito vivo, com sentimento, em uma coisa morta, um produto sem valor. O espectador desses quadros entra numa transformação correspondente: sua sensibilidade e sua habilidade de empatia com os outros tem de ser enfraquecida, e partes de sua subjetividade posta de lado.
Essa transição pode ser cercada de rituais protetores: os espectadores entram no Coliseu e o imperador declara aberto os jogos; colocamos o cassete no VCR e nos sentamos confortavelmente no sofá.
Quando não há refúgio, quando de repente no café da manhã é servido corpos ainda se mexendo na agonia da morte ou num espasmo orgiástico, nós mesmos é que somos os objetos da violência. Nosso ser interior é ultrajado.
Podemos dar meia volta ou continuar a olhar sem ver. A cena perde sua substância, vira um jogo sem referência a nada que seja exterior. O significado simbólico é morto.
A excitação esperada ansiosamente de ver o que é proibido mostrar é transformada em desagrado e tédio como uma consequência dos pontos cegos que caracterizam cenários de perversão. (…).
Desse modo consentimos em ser dispossuidos de nossas fantasias. O que nos tenta é o fato de acreditarmos que estamos superando a morte.


A FASCINAÇÃO COM A VIOLÊNCIA E
A FUGA DO SOFRIMENTO E DA DOR

Cenas de violência e perversão prometem nos emprestar uma liberdade das algemas de nossas consciências e normas sociais, prometem que por fim nos realizaremos completamente. Prometem rasgar todas as proibições que até este momento vinham limitando as nossas possibilidades.
Quanto menos compreesível parece ser a razão da violência, mais destituída de emoção são os atos de perversidade, e mais fortes são as nossas reações, positivas ou negativas. Somos trapaceados, não importa se estamos bem ligados ou desanimados.
Foucault conclui em 1976 o primeiro volume da “História da Sexualidade” e diz: A ironia desta publicação é a de acreditarmos que ela se relaciona com a nossa “liberação”. Esses casos diretos cada vez mais sofisticadas ou realísticos deixam um sentimento de vazio, saciamento e aversão em seu rastro. A prometida liberação nunca vem, seja ela um apocalipse ou um paraíso na terra. O tremendo tédio das cenas de violência nos pega. A descrição de Freud “ os instintos da morte são, por sua natureza, mudos” e “o clamor da vida prevém em sua maioria do Eros”. No superego da melancolia “uma cultura pura do instinto da morte” reina supremo. Quando repetições perpétuas da mesma ação são apresentadas sem o seu contexto histórico e emocional, elas perdem sua relação com as condições de nossa existência e com nossas raízes. Desse modo a depressão retorna com a cena de violência, como todo limite que é cruzado, desaparece gradualmente enquanto nos ajuda a fugir. Esse vazio, camuflando nossa própria violência, desejos destrutivos, é uma forma patológica de dor, de um ponto de vista psicoanalítico, uma expressão da falta de habilidade ou recusa ao sofrimento e à dor.

O desejo de livrar-se das limitações de nossa existência terminam em depressão ou destrutividade. Sabina Spielrein, que em 1912 sugeriu a primeira fraseologia psicoanalítica para o instinto da morte, escreveu que a característica mais importante de um indivíduo e que ele é “dividuum”, indivisível. Wurmser vê os clamores humanos ao absoluto como “a perversão da consciência” – eles criam o lado “demoníaco” da personalidade e leva ao mal, destruição e violência. De acordo com Shengold o nosso desejo original para “tudo” é uma expressão do narcisismo extremo, e faz com que “tudo” seja inatingível. Nossos desejos de morte expressam uma raiva que se volta contra a inevitável frustação da realidade em que vivemos, representada pelos indispensáveis pais. Somente uma tolerância para o “não”, “nunca” e “nada” pode criar um lugar real onde é possível para “alguém” existir como um indivíduo isolado com sua própria identidade.

O termo psicoanalitico “onipotência do pensamento” pode nos ajudar a compreender os efeitos desses diversos casos de violência na mídia. O conceito foi inventado por um dos pacientes de Freud, conhecido como Ratman e usado por Freud em suas pesquisas sobre tabu. O que é que os pensamentos mágicos das crianças, dos pacientes neuróticos obsessivos e das pessoas das culturas primitivas tem em comum é que o pensamento é considerado como simultâneo à ação. A marca diferencial dessa nova mídia global é que ela atualiza tão facilmente esta arcaica e infantil “onipotência do pensamento” e porque desse modo cria soluções narcisistas. Por seu lado este narcisismo é um obstáculo efetivo ao sofrimento, depressão e dor. Somada a isto está também a desintegração da consciência individual ao se participar da rede global de espectadores. Nas pesquisas de Freud sobre tabu o arquétipo para este processo foi o primitivo totem alimento quando o totem animal era morto e devorado: cada indivíduo está ciente de que está fazendo alguma coisa proibida, mas que é permitida pelo simples motivo de que todo o clã está participando.

De acordo com Freud, os produtos culturais do homem são um primeiro reconhecimento de Ananke, “Necessidade”, no sentido das limitações inerentes das condições existenciais do homem e que desafiam nosso narcisismo. Neste contexto pode ser dito qaue a relação da arte com “Necessidade” sempre foi ambivalente. Cada trabalho de arte inovativo (…) é um esforço para subjugar Ananke, ir além dos limites em nossa existência terrestre e de restabelecer uma uma estrutura narcisista. Arte que termina assim, no entanto, não será arte: não até que encontre uma camada mais profunda de depressão que nos ajude a sofrer. A criatividade é amarrada sutilmente ao nosso lado narcisista e depressivo. Podemos no reconciliar com nossas condições existenciais com ajuda de narrativas que lidam com o que nos faz humanos irrecuperavelmente condenados a viver como “in-divíduos” separados, dependentes um do outro, divididos em dois sexos e diversas gerações, vulneráveis e mortais. Um doloroso reconhecimento de Ananke, é também uma parte importante do processo psicoterapêutico de mudança.

CENAS DE VIOLÊNCIA E PERVERSÃO SÃO DIFERENTES DE IMAGENS DA CONDIÇÃO HUMANA

(…) A preocupação com a violência e a perversão em nossa cultura pode ser vista como uma consequência da secularização, a vitória da racionalidade sobre a fé, e a continuação da desintegração dos limites entre sagrado e profano. Nietzsche e Dostoyevsky articularam esta percepção de Gott ist tot: se Deus está morto todos os crimes e perversões são permitidos.

Depois de Auschwitz nossa cultura foi em grande parte caracterizada pelo desejo de tudo ver e mostrar e por uma negação dos limites para o que pode ser descrito e o que pode ser feito. Isso envolve uma mudança em nossa relação com o maior dos limites de nossa existência, a morte. Grandes ambivalências caracterizam o culto da morte, que continua seu avanço à sombra da câmera de gás e dos fornos do crematório. De um lado o tabu cercando a morte parece ter sido fortalecido e por outro lado, eliminado. Muito do conteudo concreto, físico da morte ficou invisível ao mesmo tempo que as cenas de morte e corpos mortos estão nos inundando. Parecemos estar negando que nossa própria morte, assim como a dos outros, é uma das realidades da vida e um “depois”, ao mesmo tempo que violamos antigos tabus relacionados à morte, assim como suas imagens. Se a morte não é um limite final e se cenas de assassinato e de cadáveres são um ingrediente comum em nossa vida diária, talvez não haja nada de que precisemos ter medo e, também, nada a lamentar. Este culto da morte parece ser uma tentativa de chegar a termo com o ultraje narcisista perpetrado em nós pelo fato de que somos mortais.

A tecnologia atual para difundir informações aumentou o alcance de nossos órgãos de sentido e motores a um nível que se extende a todo o globo. Essa expansão global de limites dos órgãos exteriores do ego não foi acompanhada por uma mudança correspondente em nosso ego. A membrana do ego, a camada mais superficial de nossa imagem do corpo e nosso mundo interior, está ficando para trás. Esse estado de coisas parece com a adolescência: o corpo dos adolescentes muda mais rápido que suas chances de integrá-lo em sua auto-imagem, ao mesmo tempo que um aumento radical na pressão de seus instintos provoca uma regressão.
Ao contrário do adolescente, porém, estamos falando aqui não de um assunto sobre o aumento de pressão da libido, mas do instinto da morte. O resultado é que outra vez nos deparamos com o lado arcaico e infantil de nós mesmo, desta vez sob a hegemonia do ódio e destrutividade. Mudanças na arena social e no escopo da mídia coincidem e juntas reforçam os processos psíquicos regressivos, (…).

(…) Podemos confirmar, agora, as hipóteses preliminares de que cenas de violência e sexualidade podem ter consequências intrapsíquicas traumatizantes caso penetrem ou contribuam para para a desintegração da membrana de proteção do ego. Uma exposição massiça a imagens das maldades e perversões humanas, destituidas do contexto emocional e histórico, pode ativar nossas “remanescências arcaicas”. Nossa própria destrutividade e narcisismo pode então vir à tona mais do que ser desviadas e canalizadas. Isso pode levar a uma reorganização temporária ou persistente do ego. (…)

Qual é, então, a diferença entre cenas de violência e perversão que servem aos fins do instinto da morte e casos que promovem a ação do instinto da vida. Uma diferença é entre cenas que isolam um fragmento de nossa vida, ignorando o seu todo de seu contexto emocional e histórico, e casos que estão incorporados na história humana.

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